OPINIÃO
Não estávamos preparados para perdê-lo
OPINIÃO
“A arte existe porque a vida não basta”, disse certa vez o poeta maranhense, Ferreira Goulart, que teu pai, Antônio Carlos conheceu quando morou no centro de São Luís, há muitos anos atrás, ainda adolescente.
– NOTÍCIAS EM TEMPO REAL: participe do grupo do MT Notícias no WhatsApp e acompanhe tudo em primeira mão. Inscreva-se aqui!
Recorro a outro poeta, Carlos Drumond de Andrade, mineiro de Itabira, para falar de tua ausência, que começamos a sentir neste domingo, fim de agosto, tido e havido como o mês do desgosto.
“Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
Toninho, fazia muito tempo que não tinha notícias tuas, mais precisamente dezoito anos, que nos perdemos de vista, de ouvido, de contato. Não tive mais notícias tuas, o tempo passou, nossas vidas correram seu curso. Há dois meses, no dia 21 de maio, como que mágica, te liguei, sem saber como seria nossa conversa, a última conversa que tivemos, não teremos mais outra. Você, sempre atencioso, contido, e gentil, ouviu minhas várias indagações, como se tivéssemos a resgatar naquele momento o tempo que passara. Passamos em revistas tios e primos, falamos de filhos: eu do s meus dois garotos, Rodrigo e Frederico; você de suas princesas: Helena e Sofia, e também de Graça, companheira de jornada. Falamos de tua mãe, Maria Emília, que mesmo ainda com você, a mente a abandonara. Perguntei por teus irmãos, ao que me dissestes que todos estavam bem.
Vi que a conversa fluía noite a dentro, mais de duas horas, e para não incomoda-lo, resolvi dar por fim em nosso nostálgico colóquio. Ao se despedir, você falou que não tinha redes sociais, por isso me passou o WhatsApp de Helena, que logo enviei fotos de todos nós. Helena, me disse, “papai está enviando essas fotos”. Vi foto de você, muito jovem, com as meninas bem pequenas. Fiquei receoso de te ligar novamente, para não importuna-lo. Quando Maria Emília morreu, 27 de julho, Helena me comunicou do falecimento. Perguntei como você estava, “papai está bastante abalado”. Não te liguei, desejei pêsames através de Helena. Pensei te ligar por vezes, mas no adiamento não nos falamos mais.
A morte é sempre uma brutalidade, uma ruptura, por mais que saibamos que é a coisa mais certa, desde que por aqui aportamos. Mas partir como partistes, é doloroso demais.
59 anos de idade é menor que um grão de areia diante da eternidade. Partiste jovem demais. Falaste-me que que estavas te preparando para a aposentadoria, falamos da colheita do que plantastes ao longo da caminhada. Quanta coisas tinhas pela frente, quantos sonhos interrompidos, quantos projetos abortados, quanta vida a ser vivida.
Recorro novamente aos poetas: no leito da morte, perguntaram para Chico Anisio, já bastante debilitado, se ele tinha medo de morrer, ao que respondeu, “Não tenho medo de morrer, tenho pena, pois são tantos projetos a realizar”.
Quantas coisas à realizar tu deixastes, Toninho. Que pena tua precoce partida.
Lembro de nós garotos, talvez tenha sido um dos primos mais próximo de você. Quando você esteve interno no Colégio Militar, em Fortaleza, viramos missivistas, trocamos diversas correspondências, falávamos de tudo, éramos sonhadores.
Estive algumas vezes na casa de vocês, na vila militar, em Teresina, onde a alegria da carioca Maria Emília, tua mãe, era contagiante. Até na natação ela me colocou, íamos todos para o clube em uma Variante.
Fui a Natal, a trabalho, e você, João Carlos e Emílio Carlos, juntamente com tio Antônio Carlos, me recepcionaram da melhor forma, nos reunimos no Mangai, esse templo gastronômico potiguar. Depois fui vê tua mãe. Foram momentos adoráveis, sempre tive com Maria
Emília um ótima relação de amizade e respeito.
Fui revê-los em julho de 2003, em uma trágica situação, após o grave acidente que sofri próximo a Assu. Em trinta dias que estive internado no Intorne, você, seu pai e irmãos foram incansável comigo, com Heloísa e os meninos. Hoje, quando comuniquei de tua partida, Rodrigo e Frederico se entristeceram e falaram de como eras “um cara muito legal”. Falaram de casos pitorescos, de como eles, garotos de 14 e 16 anos, recordavam de você. Lembraram um episódio do palito de dente, que você contou a eles, que não teve tempo de tirar algo que te incomodava en tre os dentes, e teve que usar um palito, dentro de um ônibus. Uma irmã de tua esposa, ou ainda namorava estava no ônibus, assistiu a cena e contou para Maria Emília. Ao que você contava rindo: “Um Engenheiro-advogado palitando os dentes, dentro de um ônibus”. Boas lembranças.
Nesta hora que te fostes, nesta hora que o amor se transformou em saudade, clamo à Deus que acalante o coração de tua companheira de caminhada, Graça, que contigo constitui uma bonita família, que frutificou em duas lindas moças, Helena e Sofia, que tiveram o privilégio de ter o melhor pai do mundo.
Que Deus acalente também os corações de João Carlos, Georgina, e Emílio, pois vocês puderam desfrutar da companhia e da presença desse irmão, primogênito: homem honrado, digno, ético, generoso, zeloso.
Meu respeito e solidariedade a todos vocês nesta hora, recorro uma vez mais ao porta Drumond:
“Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste”.
Toninho, querido, quero te agradecer pela especial pessoa que fostes, que ajudastes a melhorar o teu entorno, alegrastes os teus; teu legado será preservado por aqueles que te amam. Vá com Deus.
Estou triste, pois não tive a iniciativa de novamente te ligar novamente, bater um longo papo, falar de nosso cotidiano, de nossas vidas, de nossos dias, de futuro.
Viver é administrar perdas, rasgar-se e cingir-se permanentemente. Tua inesperada e fugaz partida deixa um enorme vazio. Dói saber que não nos falaremos mais. Você fará muita falta.
Deixastes de viver entre nós para viver em nós.
Fiquem com Deus, fraternal abraço em todos.
Luiz Thadeu Nunes e Silva é Engenheiro Agrônomo, Palestrante, cronista e viajante: o sul-americano mais viajado do mundo com mobilidade reduzida, visitou 143 países em todos os continentes.
OPINIÃO
Reforma tributária, desafios e oportunidades
A reforma tributária é a mais importante transformação no sistema tributário do Brasil desde 1966 quando foi criado o Código Tributário Nacional, cuja implantação se inicia em 2027 e será concluída em 2033.
O novo sistema de tributação terá alto impacto para estados e municípios.
A principal alteração instituída pela Emenda Constitucional n.132 (2023) e Lei complementar n. 214 (2025) foi a definição de que a tributação do consumo de bens e serviços se dará no local onde são consumidos e não onde são produzidos.
A alteração constitucional optou pelo IVA (imposto sobre valor adicionado) dual, criando a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) que substituirá os tributos federais PIS, Cofins e IPI e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) que substituirá o ICMS (estadual) e ISS (municipal). O IBS gerará receitas para estados e municípios e os recursos da CBS irão para o governo federal. A emenda constitucional estabelece ainda que a alíquota máxima somada dos dois novos tributos não pode ser superior a 26,5%.
A reforma tributária elimina a guerra fiscal entre os estados ao acabar com os incentivos fiscais. Estados ficam impossibilitados de conceder benefícios fiscais para atrair empresas aos seus territórios.
A reforma tributária representa para Mato Grosso desafios e oportunidades, por ter uma economia com características de alta sensibilidade à implantação do novo sistema de cobrança tributária
Para compensar possíveis perdas com a retirada dos incentivos fiscais, que pode levar empresas a alterar a localização de suas plantas, foi criado o Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR) com o objetivo de transferir recursos da União a estados para financiar políticas de desenvolvimento regional. O FNDR ajuda a mitigar os efeitos da proibição de concessão de benefícios fiscais, mas a política de atração de negócios por meio de concessões tributárias deixa de ser um instrumento de estímulo ao desenvolvimento regional.
A reforma tributária representa para Mato Grosso desafios e oportunidades, por ter uma economia com características de alta sensibilidade à implantação do novo sistema de cobrança tributária.
Os maiores desafios são como manter ou aumentar a receita fiscal dos principais tributos estaduais (ICMS e ISS) contando com um mercado consumidor de apenas quatro milhões de habitantes e como atrair novos negócios sem oferecer incentivos fiscais.
É muito difícil responder este questionamento antecipadamente, antes da efetiva operacionalização do novo sistema tributário do consumo.
Mas é possível apontar algumas evidências, já constatadas em vários estudos e ensaios sobre a reforma tributária.
A despeito do pequeno mercado consumidor, Mato Grosso é a economia que mais cresceu nos últimos trinta anos entre os estados brasileiros. Tem uma das maiores rendas per capita do país e é consumidor líquido de bens e serviços. Isto é, importamos mais serviços e produtos industriais complexos do que exportamos. A maior parte da nossa produção é de bens agropecuários primários que são isentos de tributos ao serem exportados para outros países.
De outro lado, o estado é grande consumidor de bens e serviços tecnológicos e industriais sofisticados, com alto valor agregado. À guisa de exemplo, Mato Grosso é campeão nacional em aquisição de caminhões, tratores, colheitadeiras, implementos agrícolas, jatos executivos e software de gestão. Os tributos cobrados sobre esses bens são pagos nos estados onde estão suas respectivas fábricas. Com a reforma tributária passarão a recolher o IBS e CBS em Mato Grosso onde se dá o consumo.
A janela de oportunidades surge com a possibilidade de aumentar a arrecadação do estado com a simplificação e redução de custos das empresas com apuração, gestão e recolhimento dos novos tributos.
O ICMS é o tributo de maior complexidade do sistema tributário brasileiro. Cada estado tem legislação complexa e específica do ICMS. A reforma tributária vai padronizar a legislação nacionalmente e a arrecadação será efetuada diariamente pela ferramenta tecnológica chamada “split payment”, por meio da rede bancária nacional.
Segundo estudo e metodologia de Gobetti e Monteiro (GOBETTI, Wulff Sérgio) e (MONTEIRO, Priscila Kaiser), Impactos
Redistributivos da Reforma Tributária: Estimativas Atualizadas (IPEA, 2023),os municípios com menores níveis de desenvolvimento econômico e social serão mais beneficiados com a vigência do IBS. Segundo Gobetti e Monteiro, 78% dos municípios brasileiros de pequeno porte e com baixo desenvolvimento terão aumento de receitas com a implantação da reforma tributária.
As pequenas cidades praticamente não arrecadam ISS e possuem pequena participação na parte do ICMS que cabe aos municípios (25% da arrecadação). Passarão a contar com volume maior de recursos compartilhados (equivalentes à soma dos atuais ICMS e ISS) e contarão com uma parte fixa do IBS (5%) que será distribuída igualitariamente aos 142 municípios de Mato Grosso. Além de outros critérios como população, melhorias na aprendizagem e preservação ambiental.
Os gastos tributários de Mato Grosso em 2025, somente com ICMS, foram de R$ 12 bilhões. Com a extinção dos benefícios fiscais, esses recursos comporão a receita do IBS a partir de 2033, aumentando expressivamente o montante a ser repartido entre o tesouro estadual e municípios.
O bom ambiente de negócios e o acelerado crescimento da atividade econômica também atuarão como fatores positivos para ampliar a arrecadação do IBS em Mato Grosso.
-
GERAL6 dias atrásMato Grosso tem o segundo menor preço de etanol no Brasil
-
GERAL6 dias atrásLatam anuncia novas rotas no Brasil com aviões Embraer E195-E2
-
OPINIÃO6 dias atrásAgosto Lilás, quem ama não ameaça, não controla, não agride
-
GERAL5 dias atrásLatam anuncia voos diários entre Rondonópolis e SP
-
GERAL5 dias atrásUFMT Sinop inaugura mural monumental em comemoração aos 20 anos
-
GERAL6 dias atrásPodemos apresenta 34 candidatos e projeta eleger sete deputados estaduais
-
GERAL6 dias atrásTCE vê falha em licitação de R$ 136,9 milhões, barra novas adesões e cobra mudanças da SES
-
GERAL6 dias atrásIntervenção do TJ mira redução de quase 4 mil processos parados em MT



