Escalada da violência
Mato Grosso chega a 18 feminicídios em 2026; vítimas imploraram pela vida antes de serem mortas
GERAL
Chegou a 18 o número de mulheres vítimas de feminicídio em Mato Grosso, conforme atualização do Observatório Caliandra, gerido pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT). Na semana passada, foi noticioado que o Estado havia registrado 17 casos. Contudo, apesar de não haver registro do crime nesta semana, o assassinato da cozinheira Regiane Oliveira Lima, de 38 anos, ocorrido no início do ano, em Pontes e Lacerda (a 444 km de Cuiabá), inicialmente tratado como homicídio, passou a ser investigado como feminicídio neste mês, com o avanço das apurações.
À época, o corpo de Regiane foi encontrado próximo à região de garimpo da Ponte Sararé. A ocorrência foi tratada como encontro de cadáver pela Polícia Civil. Ela era natural de Itaituba (PA) e trabalhava como cozinheira no local
Regiane e outras 17 mulheres se tornaram estatísticas de um crime cruel que assola Mato Grosso. Em janeiro deste ano, além dela, outras duas mulheres foram vítimas de feminicídio: Laila Caroline Souza da Conceição, em Nova Maringá (a 378 km de Cuiabá), e Ana Paula Lima Carvalho, em Chapada dos Guimarães (a 66,5 km da Capital).
Laila foi assassinada a facadas pelo cunhado, Gutemberg Lima Santos, de 29 anos, na frente dos filhos. Já a esteticista Ana Paula foi esfaqueada pelo ex-genro. Ela sobreviveu ao ataque inicialmente, mas morreu dias depois no hospital.
De janeiro a maio, muitas outras vidas de mulheres foram ceifadas. Somente neste mês, quatro foram brutalmente assassinadas.
Na primeira semana do mês, a estudante de Direito Valéria Araújo Corrêa, de 28 anos, foi morta e estuprada por José Carlos Gomes de Souza, de 20 anos, que confessou os crimes. Em depoimento, ele relatou ter desferido 31 facadas contra a vítima, sendo 26 delas na região do pescoço.
Situação semelhante aconteceu com Clara Vitória da Silva, de 23 anos, morta pelo vizinho Douglas Aparecido Ferreira. Ele também confessou o assassinato e o estupro cometido contra a vítima. Ambos os casos aconteceram em Tangará da Serra (a 242 km de Cuiabá).
Clara Vitória foi morta e estuprada em Tangará da Serra; a estudante Valéria Araújo foi assassinada com 31 facadas; Nilza Moura teve o corpo enterrado no quintal de casa; e Elzilene Alves implorou pela vida antes de ser morta a facadas pelo marido
Também foram vítimas de feminicídio neste mês a empresária Nilza Moura de Sousa Antunes, de 64 anos, morta pelo marido em Cuiabá, em um caso desvendado no dia 5 de maio, e Elzilene Alves do Nascimento, de 49 anos, assassinada pelo companheiro, com quem era casada havia 30 anos, em Várzea Grande. O corpo dela foi encontrado em uma região de mata, próximo a um córrego no bairro Marajoara, no dia 7 de maio.
Nilza, empresária do ramo imobiliário, foi encontrada morta e enterrada no quintal de uma residência no bairro Parque Cuiabá, na Capital. O marido dela, Jackson Pinto da Silva, de 38 anos, confessou ter amarrado o corpo e utilizado um lacre plástico, conhecido como “enforca-gato”, para asfixiá-la. Na tentativa de ocultar o cadáver, ele contratou uma máquina para cavar o buraco no quintal, alegando que o serviço seria para a instalação de uma manilha.
Além da violência física, o crime teve motivação financeira. Jackson chegou a simular um sequestro da esposa e realizou transferências bancárias com dinheiro da vítima após a morte.
Já Elzilene foi assassinada a facadas por Francisco Carlos Pereira da Silva, de 68 anos. Ele confessou o crime e foi preso. De acordo com a investigação da Polícia Judiciária Civil, o homem atraiu a esposa para um suposto passeio na região e, ao chegar a um local isolado, passou a atacá-la. Ele desferiu 10 golpes de faca contra a mulher, que chegou a pedir clemência e implorar pela vida, mas não resistiu aos ferimentos.
Nenhuma das vítimas conseguiu registrar boletim de ocorrência ou solicitar medida protetiva contra os agressores antes dos crimes.
Feminicídios e medidas protetivas
Do total de 18 feminicídios registrados neste ano em Mato Grosso, apenas uma vítima possuía medida protetiva. Março foi o mês mais violento do período, com seis assassinatos registrados.
Até agora, as autoridades aplicaram 7.088 medidas protetivas no Estado, número que busca frear a violência que, em 2025, gerou 18.223 pedidos de proteção. As medidas protetivas, previstas na Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), são mecanismos fundamentais para garantir segurança às mulheres e permitir que denunciem seus agressores.
Elas podem ser solicitadas independentemente da tipificação penal ou da instauração imediata de inquérito policial, funcionando como forma de conter a violência por meio de restrições ao agressor que, se descumpridas, podem resultar em prisão imediata.
Denuncie
A violência contra a mulher não pode ser ignorada nem ficar impune. Em Mato Grosso, há canais gratuitos e seguros para denunciar agressões, ameaças ou risco de feminicídio. As denúncias podem ser anônimas, e o boletim de ocorrência pode ser registrado online, por meio da Delegacia Digital: https://delegaciadigital.pjc.mt.gov.br/
Em casos de emergência ou flagrante, a orientação é procurar ajuda imediata pelos telefones 190 (Polícia Militar), 197 (Polícia Civil), 181 (Disque Denúncia) ou 180 (Central de Atendimento à Mulher). Em Cuiabá, também é possível acionar a Patrulha Maria da Penha pelo número (65) 98170-0199.
O atendimento presencial está disponível na Delegacia Especializada de Defesa da Mulher de Cuiabá e na Delegacia da Mulher de Várzea Grande. A pena para crimes contra a mulher pode chegar a 40 anos de prisão, conforme previsto na Lei Federal nº 14.994/2024, conhecida como Pacote Antifeminicídio.
GERAL
Predadores sexuais costumam ser da família ou conhecidos próximos; entenda
O criminoso sexual é gente como a gente, afirma o promotor de Justiça, Rinaldo Segundo, que atua na 14ª Vara Criminal da Capital. Ele não tem estereótipo, trabalha, tem família, é um bom cidadão. Muitas vezes, são pessoas sem antecedentes criminais, que têm profissão e são atuantes na comunidade. A quarta reportagem da série Arquivo Laranja, sobre o enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, mostra o perfil do predador sexual.
O crime acontece em todas as classes sociais e mais de 90% no ambiente familiar. É praticado por pessoas conhecidas, pais, padrastos, tios, primos, vizinhos ou pessoas que têm acesso à casa. Estudos mostram que entre as vítimas de 0 a 13 anos, 65% dos agressores são membros da família e 22% são conhecidos, como vizinhos, padrinhos ou amigos da família.
Entre os anos de 2021 e 2025 foram registrados em Mato Grosso 8.470 estupros de vulneráveis, enquanto que nos quatro primeiros meses deste ano foram denunciados 463 casos, uma média de quatro crimes por dia. Dados do Ministério da Saúde mostram que em 2025 foram registradas cerca de 60 mil notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes no País.
Conforme o promotor Rinaldo Segundo, os números só aumentam, tanto nacionalmente como em Mato Grosso, e a maior preocupação é com a subnotificação, já que a maioria dos crimes é praticada por aquele que deveria proteger e zelar pela vítima. Muitos casos são abafados e os abusadores ficam impunes. A estimativa é que pouco mais de 10% dos casos chegam ao sistema policial.
Há seis anos atuando em ações relativas a crimes sexuais praticados contra crianças e adolescentes, na 14ª Vara Criminal, Rinaldo, que é cuiabano, já se deparou com colega de faculdade como réu. Eu já encontrei gente que trabalhou comigo, encontrei professor que trabalhou com o meu pai por 30 anos e que conheci desde pequeno como réus. Pessoas da minha infância, como vítimas também. Vi que gente que frequentou nossa casa, que brincou com a gente, que era amigo de meu pai, pessoas que faziam parte do seu cotidiano, estavam envolvidos em crimes sexuais contra crianças.
Onde menos esperava
A assistente social J., 45 anos, nunca imaginou que um de seus três filhos pudesse ser vítima de abuso sexual, já que sempre teve todo o cuidado para orientá-los e esteve presente, acompanhando as suas atividades diárias. Mas, mesmo assim, onde menos esperava, o filho de 13 anos foi abusado, por uma pessoa que ela e a família depositaram toda confiança.
Os abusos ocorreram durante um torneio de futebol no interior do estado. Ela lembra que foi a primeira vez que o filho viajou sozinho e ela iria encontrá-lo no final de semana. Quando lembro que entreguei o travesseiro e os documentos do meu filho nas mãos do homem, que era um dos responsáveis pelo grupo e que abusou dele. Pouco antes de entrar no ônibus eu, preocupada, ainda pedi que ele ficasse atento, quando o pedófilo garantiu que não era para eu me preocupar, cita a mãe indignada.
Mas acredita que toda a orientação dada ao filho o ajudou a perceber que estava sendo abusado e tomou a rápida decisão de entrar em contato com a família, que o resgatou horas depois e denunciou o crime. O abusador foi condenado a 14 anos de reclusão por estupro de vulnerável, mas aguarda em liberdade os recursos da defesa junto a instâncias superiores.
Predador sexual não tem rosto
A médica legista Alessandra Carvalho Mariano, que atua na perícia em vivos junto à Perícia Oficial e Identificação Técnica do Estado (Politec), se depara em seu dia a dia com as vítimas e autores de crimes sexuais e assegura que o predador sexual não tem rosto. Ele se camufla e usa personas diferentes para cada situação e, por isso, não levanta suspeitas. Também está presente em várias faixas etárias, entre adolescentes até idosos.
Os abusadores podem ser encontrados no ambiente doméstico (um familiar, amigo, vizinho), no ambiente institucional (escolas, igrejas, espaços públicos), ou ainda no ambiente virtual, onde tem crescido as vítimas de crimes sexuais, alerta Alessandra. Cita casos de vítimas do ambiente virtual que se mutilam ou mesmo tentam suicídio em razão dos abusos praticados por criminoso que se esconde por detrás de uma tela. Cita que não só a violência física deixa marcas, mas os danos psicológicos podem ser irreparáveis.
Aliciadas ao ingressarem em páginas de jogos infantis, as vítimas são levadas à masturbação e até introdução de objetos em seus corpos, pelos pedófilos. Por isso, é fundamental que pais e responsáveis acompanhem de perto as atividades das crianças e adolescentes nas redes sociais. Prevenção com orientação é o melhor método de evitar que seu filho também seja vítima, aconselha a médica perita.
Segundo o promotor Rinaldo Segundo, de janeiro a julho de 2025, no Brasil, foram denunciados 32 mil crimes cibernéticos contra crianças e adolescentes, entre deepfake, montagem com foto de sexo, abuso sexual pela internet, manipulação de imagens, entre outros. Cita que das quatro audiências realizadas na tarde da última quinta-feira (21), em duas delas os abusos foram por meio virtual.
Orientações
A médica legista, Alessandra Carvalho, orienta que os pais sempre mantenham diálogo franco com os filhos sobre os perigos que existem no mundo exterior, bem como a maldade no mundo virtual. A criança precisa ser orientada a eleger três pessoas de sua confiança, a quem relatar qualquer situação de desconforto em relação ao seu corpo, inclusive dentro do ambiente familiar. Eleger um familiar, um professor ou um amigo de confiança para denunciar o fato e evitar que os abusos avancem ou se perpetuem.
Em relação às redes sociais, a fiscalização dos pais deve ser constante, pois escondem muitos predadores que se passam por crianças e adolescentes. Existem aplicativos de bloqueio e sistemas de censura para monitorar as conversas. É importante lembrar que na primeira fase a criança é conquistada, na segunda passa a ser vítima dos jogos sexuais, seguida de manipulação e a chantagem, quando se sente refém do criminoso.
Segundo o promotor, outro dado importante está no fato dos pais ou responsáveis, desde os primeiros anos de vida da criança, ensinarem a ela os nomes reais dos órgãos sexuais e que são intocáveis, inclusive por pessoas próximas. Uma educação sexual voltada para orientar as crianças do que pode ou o que não pode, em relação ao corpo dela, que é intocável, aponta o promotor. Uma pesquisa mostrou que as crianças que têm esse conhecimento acabam afastando os predadores, que temem ser denunciados com mais facilidade pelas vítimas, que já foram orientadas pela família, finaliza Rinaldo Segundo.
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