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ARTIGO

A resistência da inflação

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OPINIÃO

Um bom debate que circula entre economistas, macroeconomistas, analistas financeiros, empresários, agentes econômicos e sociedade de forma geral é a resistência da inflação brasileira. Afinal, por que a inflação continua em nível alto mesmo o Banco Central praticando uma política monetária bastante restritiva, elevando os juros básicos ao patamar de 14,75% para conter os preços e conduzir a inflação rumo à meta de 3% anuais?

Conhecido o IPCA/IBGE de abril, a inflação está em 5,53% nos últimos doze meses, acima da banda superior da meta que é de 4,5%.

Alguns fatores surgem quase de forma consensual nas análises da resiliência inflacionária.

Quando a autoridade monetária decide aumentar a taxa básica de juros com o objetivo de desacelerar a atividade econômica, essa medida demora de seis a nove meses para produzir resultados práticos. No contexto brasileiro atual, deve levar de doze a quinze meses, em razão do mercado de trabalho aquecido, com taxa de desemprego em 6,6%, uma das menores da série histórica na atual metodologia utilizada pelo IBGE desde 2012, aumento do consumo das famílias e elevação do investimento privado, como ficou evidente nos dados do crescimento do PIB no primeiro trimestre de 2025.

A verdade inconveniente é que, para o país crescer sem aumentar a inflação, precisa melhorar a produtividade

Além da diminuição da desocupação, cresceu a renda média do trabalho e aumentou a força de trabalho de 98 milhões para 104 milhões de pessoas que trabalham de variadas formas, na iniciativa privada com carteira assinada, servidores públicos nas esferas federal, estaduais, municipais, autônomos, micro-empreendedores individuais (MEIs) e até informalmente.

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Outro fator que atua de forma intensiva para a resistência dos preços é o conjunto de medidas que o governo federal implementa para estimular o consumo das famílias e das empresas por meio de maior oferta de crédito (alguns subsidiados), aumento de pessoas beneficiadas por programas sociais, programa de crédito consignado nas folhas salariais das empresas privadas que utiliza como segunda garantia a conta do FGTS do trabalhador. A primeira garantia é o fluxo salarial mensal.

O conjunto de ações da administração federal para incentivar o consumo e aquecer a atividade econômica conflita com as medidas de restrição do Banco Central. É como alguém dirigir um carro com um pé forte no acelerador e, ao mesmo tempo, o outro pressionando o pedal do freio. Essa não é uma maneira recomendável de dirigir um veículo.

Outro ponto de consenso é a fragilidade fiscal do país. O desequilíbrio atual das contas nacionais e ausência de medidas estruturais de contenção e redução dos gastos públicos nos níveis federal, estadual e municipal, criam uma densa nuvem de incertezas que afetam o funcionamento normal das engrenagens da economia.

Estudo recente elaborado por pesquisadores especializados do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV) mostra que os gastos dos estados e municípios cresceram mais que os da administração federal.

Esse crescimento das despesas, entre outros fatores, tem origem no aumento dos repasses do orçamento federal para estados e municípios. Era uma tendência que já acontecia desde 2015 e intensificou após a pandemia. O fenômeno confirma o maior empoderamento do legislativo frente ao executivo. O congresso nacional impôs aumento de uma série de transferências a estados e municípios, como é o caso dos recursos do Fundeb, fatia do imposto de renda e as transferências através das emendas orçamentárias.

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Os primeiros dados de maio, divulgados pelo IBGE do IPA (Índice de Preços ao Produtor Amplo), indica queda de preços de milho, soja, trigo, cana-de-açucar, café, boi, aves e frangos vivos. A queda de preços no começo da cadeia produtiva agropecuária, nas chamadas matérias-primas brutas, sinaliza que os preços nas gôndolas dos supermercados devem diminuir no segundo semestre, arrefecendo um pouco a trajetória da inflação. Mas não permite ilusões. O IPCA deve flutuar entre 5 e 5,5% até o final deste ano.

A verdade inconveniente é que, para o país crescer sem aumentar a inflação, precisa melhorar a produtividade. Toda a sociedade brasileira precisa urgentemente firmar um grande pacto nacional e definir como valor da nação o equilíbrio das contas públicas nacionais em todas as esferas. Algo parecido ao engenhoso Plano Real que acabou com o câncer da hiperinflação e estabeleceu novo patamar de estabilidade monetária para o Brasil.

O país precisa de um “Plano Real” dos gastos públicos. Um plano amplo e corajoso que possa enfrentar alguns tabus e vacas sagradas revisando os estratosféricos gastos tributários com renúncias e benefícios fiscais para empresas e pessoas físicas, os vergonhosos supersalários públicos, desvinculações constitucionais que engessam os orçamentos da União, estados, municípios e redefinição de benefícios previdenciários sem fonte de financiamento definida.

Vivaldo Lopes é economista e escreve neste espaço às segundas-feiras.

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OPINIÃO

Reforma tributária, desafios e oportunidades

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A reforma tributária é a mais importante transformação no sistema tributário do Brasil desde 1966 quando foi criado o Código Tributário Nacional, cuja implantação se inicia em 2027 e será concluída em 2033.

O novo sistema de tributação terá alto impacto para estados e municípios.

A principal alteração instituída pela Emenda Constitucional n.132 (2023) e Lei complementar n. 214 (2025) foi a definição de que a tributação do consumo de bens e serviços se dará no local onde são consumidos e não onde são produzidos.

A alteração constitucional optou pelo IVA (imposto sobre valor adicionado) dual, criando a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) que substituirá os tributos federais PIS, Cofins e IPI e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) que substituirá o ICMS (estadual) e ISS (municipal). O IBS gerará receitas para estados e municípios e os recursos da CBS irão para o governo federal. A emenda constitucional estabelece ainda que a alíquota máxima somada dos dois novos tributos não pode ser superior a 26,5%.

A reforma tributária elimina a guerra fiscal entre os estados ao acabar com os incentivos fiscais. Estados ficam impossibilitados de conceder benefícios fiscais para atrair empresas aos seus territórios.

A reforma tributária representa para Mato Grosso desafios e oportunidades, por ter uma economia com características de alta sensibilidade à implantação do novo sistema de cobrança tributária

Para compensar possíveis perdas com a retirada dos incentivos fiscais, que pode levar empresas a alterar a localização de suas plantas, foi criado o Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR) com o objetivo de transferir recursos da União a estados para financiar políticas de desenvolvimento regional. O FNDR ajuda a mitigar os efeitos da proibição de concessão de benefícios fiscais, mas a política de atração de negócios por meio de concessões tributárias deixa de ser um instrumento de estímulo ao desenvolvimento regional.

Análisepolítica local

A reforma tributária representa para Mato Grosso desafios e oportunidades, por ter uma economia com características de alta sensibilidade à implantação do novo sistema de cobrança tributária.

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Os maiores desafios são como manter ou aumentar a receita fiscal dos principais tributos estaduais (ICMS e ISS) contando com um mercado consumidor de apenas quatro milhões de habitantes e como atrair novos negócios sem oferecer incentivos fiscais.

É muito difícil responder este questionamento antecipadamente, antes da efetiva operacionalização do novo sistema tributário do consumo.

Mas é possível apontar algumas evidências, já constatadas em vários estudos e ensaios sobre a reforma tributária.

A despeito do pequeno mercado consumidor, Mato Grosso é a economia que mais cresceu nos últimos trinta anos entre os estados brasileiros. Tem uma das maiores rendas per capita do país e é consumidor líquido de bens e serviços. Isto é, importamos mais serviços e produtos industriais complexos do que exportamos. A maior parte da nossa produção é de bens agropecuários primários que são isentos de tributos ao serem exportados para outros países.

De outro lado, o estado é grande consumidor de bens e serviços tecnológicos e industriais sofisticados, com alto valor agregado. À guisa de exemplo, Mato Grosso é campeão nacional em aquisição de caminhões, tratores, colheitadeiras, implementos agrícolas, jatos executivos e software de gestão. Os tributos cobrados sobre esses bens são pagos nos estados onde estão suas respectivas fábricas. Com a reforma tributária passarão a recolher o IBS e CBS em Mato Grosso onde se dá o consumo.

A janela de oportunidades surge com a possibilidade de aumentar a arrecadação do estado com a simplificação e redução de custos das empresas com apuração, gestão e recolhimento dos novos tributos.

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O ICMS é o tributo de maior complexidade do sistema tributário brasileiro. Cada estado tem legislação complexa e específica do ICMS. A reforma tributária vai padronizar a legislação nacionalmente e a arrecadação será efetuada diariamente pela ferramenta tecnológica chamada “split payment”, por meio da rede bancária nacional.

Segundo estudo e metodologia de Gobetti e Monteiro  (GOBETTI, Wulff Sérgio) e (MONTEIRO, Priscila Kaiser), Impactos
Redistributivos da Reforma Tributária: Estimativas Atualizadas (IPEA, 2023),os municípios com menores níveis de desenvolvimento econômico e social serão mais beneficiados com a vigência do IBS. Segundo Gobetti e Monteiro, 78% dos municípios brasileiros de pequeno porte e com baixo desenvolvimento terão aumento de receitas com a implantação da reforma tributária.

As pequenas cidades praticamente não arrecadam ISS e possuem pequena participação na parte do ICMS que cabe aos municípios (25% da arrecadação). Passarão a contar com volume maior de recursos compartilhados (equivalentes à soma dos atuais ICMS e ISS) e contarão com uma parte fixa do IBS (5%) que será distribuída igualitariamente aos 142 municípios de Mato Grosso. Além de outros critérios como população, melhorias na aprendizagem e preservação ambiental.

Materialde referência geográfica

Os gastos tributários de Mato Grosso em 2025, somente com ICMS, foram de R$ 12 bilhões. Com a extinção dos benefícios fiscais, esses recursos comporão a receita do IBS a partir de 2033, aumentando expressivamente o montante a ser repartido entre o tesouro estadual e municípios.

O bom ambiente de negócios e o acelerado crescimento da atividade econômica também atuarão como fatores positivos para ampliar a arrecadação do IBS em Mato Grosso.

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