Artigo
Um crime contra a ciência
OPINIÃO
É absolutamente revoltante testemunhar o que está acontecendo com a regulamentação dos bioinsumos no Brasil, afinal enquanto o mundo clama por práticas agrícolas sustentáveis e o próprio país se vangloria de ser o celeiro do planeta, vemos uma verdadeira guerra de poder instalada nos bastidores de Brasília, onde o interesse comercial e a ideologia rasteira estão atropelando a ciência de forma descarada, e não é exagero afirmar que estamos diante de um retrocesso histórico, um tapa na cara de todos os pesquisadores, cientistas e produtores.
O que se desenha no texto do decreto é um cenário desolador, no qual órgãos que deveriam atuar como parceiros da inovação, como Anvisa, Ibama e até a respeitada Embrapa, parecem ter se transformado em verdadeiros advogados do atraso. Em vez de facilitar o acesso às tecnologias biológicas, esses entes estão erguendo barreiras praticamente intransponíveis, especialmente contra a produção realizada dentro da própria propriedade rural sob a mesma justificativa de sempre: a necessidade de “segurança” e “controle”.
Mas é impossível não enxergar a hipocrisia por trás desse discurso! O que se esconde por trás dessa pretensa preocupação é a pressão de grandes corporações que veem na pequena indústria e na produção on farm uma ameaça ao seu monopólio.
E o que dizer da obrigatoriedade quase intransponível de que todo produto passe pela análise tripla de Anvisa, Ibama e Mapa? Não se trata de negar a importância da fiscalização, mas sim de denunciar a burocracia como ferramenta de exclusão, já que cada um desses órgãos possui seus próprios prazos, exigências e custos. Submeter um bioinsumo, muitas vezes produzido com microrganismos nativos daquela região, a esse trâmite moroso e caro é, na prática, inviabilizar qualquer tentativa de inovação.
Esse desenho regulatório não é novidade: ele já é conhecido no setor de agrotóxicos, cuja excessiva burocratização tem contribuído para retardar a chegada de novas tecnologias ao produtor brasileiro. Na prática, exigências complexas, custos elevados e prazos imprevisíveis favorecem as grandes empresas, que dispõem de estrutura financeira e jurídica para atravessar esse labirinto, enquanto pequenas e médias organizações inovadoras são empurradas para fora do mercado.
Mais grave ainda é a percepção de que determinados ativos só entram em processo de reavaliação quando já existe um produto substituto pronto para ocupar seu espaço — uma lógica que alimenta suspeitas de captura regulatória e representa um verdadeiro escárnio para o produtor rural, que acaba pagando mais caro e tendo acesso tardio a soluções que poderiam aumentar a eficiência e a sustentabilidade de sua produção.
É revoltante perceber que o conhecimento acumulado pela pesquisa brasileira, um dos mais avançados do mundo na área de biocontrole e biofertilizantes, está sendo simplesmente descartado em nome de uma suposta “segurança” que atende a interesses escusos. A Embrapa, que sempre foi símbolo de vanguarda, ao se posicionar contra a inovação, parece ter esquecido seu próprio propósito, alinhando-se a uma lógica retrógrada que sufoca o desenvolvimento.
Não podemos aceitar que a ideologia do medo e do controle prevaleça sobre a comprovação empírica. Não podemos permitir que o lobby de grandes grupos econômicos transforme a regulamentação em um instrumento de perpetuação de poder e de exclusão. Precisamos reagir com firmeza a esse atentado contra o futuro do agro.
A ciência está aí, oferecendo soluções concretas para uma agricultura mais rentável, competitiva e sustentável, e é um verdadeiro crime contra a nação ignorá-la. Que essa indignação se transforme em cobrança pública e que os responsáveis por esse retrocesso sintam o peso da história, pois estão do lado errado da luta, do lado do atraso, contra o progresso e contra o povo brasileiro.
*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria.
OPINIÃO
Mato Grosso não pode normalizar o feminicídio
Estamos no Agosto Lilás, mês em que o Brasil inteiro se mobiliza pelo fim da violência contra a mulher. Em 2026, essa campanha ganha um peso ainda maior: a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Duas décadas de uma lei que deveria ser sinônimo de proteção. Mas é justamente neste mês, quando fóruns e órgãos públicos se iluminam de lilás e o país celebra o avanço legal conquistado em 2006, que os números de Mato Grosso deveriam nos fazer parar e perguntar, para quem essa proteção está funcionando de verdade?
Os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 deveriam nos tirar o sono. Enquanto o total de homicídios de mulheres caiu em Mato Grosso, os feminicídios subiram 11%. Passamos de 47 para 54 casos em um ano. Hoje, mais da metade das mulheres assassinadas no estado morre por um único motivo…ser mulher. É o terceiro maior índice do país, atrás só do Acre e de Rondônia.
Esse dado não é estatística distante. É vizinha… é colega de trabalho… é parente. É a mulher que registrou boletim de ocorrência e não foi protegida a tempo. É a que nunca chegou a denunciar porque tinha medo de ser julgada, ou porque não sabia a quem recorrer.
E infelizmente não precisamos ir longe para ver esse número virar rosto e nome. Neste domingo (09), Sirlei Gomes de Oliveira, de 42 anos, foi morta a tiros pelo próprio marido, Diogo Tavares, em uma fazenda na zona rural de Vila Bela da Santíssima Trindade. Segundo a Polícia Civil, o casal tinha um histórico de violência doméstica, mas Sirlei nunca havia denunciado as agressões. É exatamente o retrato que os dados descrevem – uma mulher que resistiu sozinha ao medo por anos, sem rede de proteção, até não ter mais para onde correr.
O que mais me preocupa nesse levantamento não é só o número final, é o caminho que leva até ele. Feminicídio quase nunca é um crime isolado. Vem depois de ameaça, de agressão, de perseguição, de medida protetiva descumprida. E foi exatamente isso que os dados de 2025 mostraram, as tentativas de feminicídio cresceram quase 6% em Mato Grosso, chegando à segunda maior taxa do Brasil. A violência psicológica também disparou, com aumento de mais de 70%. São sinais de alerta que o poder público não pode ignorar, porque cada um desses casos é uma chance de intervir antes que termine em morte.
Na Assembleia Legislativa, defendi pautas de proteção à mulher e à criança porque acredito que política não se faz só com discurso. Faz-se com fiscalização de medida protetiva, com rede de acolhimento que funcione de verdade, com delegacia especializada que tenha estrutura, com Justiça que não deixe processo parado na gaveta enquanto o agressor continua rondando a vítima.
É por isso que, se eleita senadora, uma das minhas bandeiras será a prisão perpétua para estupradores e pedófilos reincidentes. Mas sei que só a lei penal não resolve. Precisamos de prevenção, de educação, de investimento em segurança pública dentro dos municípios, principalmente no interior, onde muitas vezes a mulher em situação de risco não tem nem para onde correr.
Mato Grosso não pode se acostumar a aparecer nesses rankings. Cada número desse anuário representa uma vida que poderia ter sido salva com política pública séria e continuada. Esse é o compromisso que carrego: de não deixar essa pauta esfriar depois que a notícia sai do noticiário, e depois que agosto termina. A segurança da mulher mato-grossense precisa estar na prioridade orçamentária, os 365 dias do ano, não só no discurso de campanha ou no mês da campanha lilás.
*Janaina Riva é bacharel em Direito, deputada estadual mais votada de Mato Grosso, presidente do MDB-MT e pré-candidata a senadora.
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