Artigo
Nossa própria cegueira
OPINIÃO
A dependência do Brasil em relação à China como principal comprador de carne bovina é uma realidade que poucos ousam encarar de frente. Durante anos, ouvimos o discurso confortável de que os chineses nos forçaram a produzir animais mais jovens e mais pesados, resultando em mais quilos de carne por hectare por ano. Fomos, sim, empurrados a ser mais eficientes.
Mas a que custo? A verdade é que essa eficiência foi construída sob a égide de um gigante que, agora, começa a revelar suas próprias exigências ocultas. E o que quase ninguém sabe, ou finge não saber, é que o acordo comercial entre Brasil e China, assinado em 2009, já previa a rastreabilidade individual. Os chineses, no entanto, sempre fizeram vistas grossas a esse detalhe. Sempre.
E nós, claro, nunca cobramos, nunca nos preparamos, nunca levamos a sério.
Agora, em 2026, a Europa fez valer os avisos e tirou o Brasil da lista de autorizados a exportar carne bovina para lá. Foi um Deus nos acuda. Um escândalo. Um desespero nos frigoríficos, nos portos, nos escritórios de Brasília. A Europa, sempre nosso importador mais exigente, sempre pagando mais pelo produto brasileiro, mas exigindo muito mais, como a rastreabilidade individual, finalmente disse basta.
E nós, que nos acostumamos a vender para a China sem cumprir as mesmas regras, ficamos atônitos, como se a Europa fosse a vilã da história. Como se não tivéssemos sido avisados. Como se a rastreabilidade individual fosse um capricho europeu, e não uma cláusula assinada há mais de uma década com os próprios chineses.
Pois bem. A pergunta que ninguém quer fazer é a mais óbvia: e se a China também decidir fechar as portas? Já imaginou? O fim do mundo ou a era da picanha barata?
Agora, com a Europa fora do jogo, a dependência da China se torna ainda mais sufocante. E se os chineses resolverem, de uma hora para outra, exigir a rastreabilidade individual que sempre ignoraram? Estamos prontos? Claro que não. Nunca estivemos. Nunca nos preparamos para isso. Sempre achamos que o gigante asiático seria eternamente complacente, eternamente disposto a comprar sem perguntar demais.
A verdade é que fomos negligentes. A Europa nos deu décadas de aviso. A China nos deu um acordo que previa exatamente o que a Europa exigia. E nós? Fizemos ouvidos moucos. Preferimos a ilusão do lucro fácil, da carne vendida a granel, sem rastreio, sem transparência.
Agora, o castelo de cartas começa a ruir. E o pior, o nosso plano B, que aliás é muito bom, só irá realmente produzir efeitos práticos daqui a 2 anos. E se a China também nos deixar sem comprador, não será o fim do mundo. Será o fim de um modelo. A era da picanha barata? Talvez. Mas também a era da carne sem rastreabilidade, sem valor agregado, sem respeito às regras que nós mesmos assinamos.
A picanha barata pode até aparecer nas mesas brasileiras, mas será o preço de uma humilhação comercial sem precedentes. E ninguém, absolutamente ninguém, poderá dizer que não fomos avisados. A Europa avisou. O acordo com a China avisou. Nós é que preferimos não ouvir. Agora, resta saber se ainda há tempo para aprender. Ou se vamos continuar culpando os outros pela nossa própria cegueira.
*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria.
OPINIÃO
A indústria da soja
Relatório de pesquisa divulgado pela Abiove (Associação Brasileira das Indústria de Óleos Vegetais), mostra que de janeiro a setembro de 2026 a indústria da soja registrou aumento de 13% em sua capacidade de esmagamento em relação a mesmo período de 2025. A capacidade de processamento desse segmento industrial atingiu 86 milhões de toneladas das 181 milhões de toneladas de soja da safra deste ano.
O expressivo avanço na capacidade de processamento do parque industrial da soja brasileira foi construído como resposta do setor ao crescimento da demanda de óleo de soja para produção de biodiesel, aumento do consumo interno e das exportações de farelo de soja para ração animal.
Além de ser o maior exportador mundial de soja em grãos, o Brasil também ocupa a segunda posição mundial em exportações de farelo de soja, sendo a China a nossa maior cliente.
A região centro oeste lidera a expansão da capacidade industrial da soja e Mato Grosso tem a liderança nacional, respondendo por 22% de todo o processamento industrial de óleo e farelo de soja.
No mercado doméstico, o óleo de soja responde pela maior parte da matéria prima utilizada na fabricação de biodiesel, cujo consumo sobe a cada ano com o aumento de frotas de cargas movidas com esse biocombustível. E a demanda interna de farelo de soja também tem trajetória crescente, pois é o principal ingrediente utilizado pela cadeia de carnes.
A pesquisa da Abiove indica que a demanda firme de óleo e farelo de soja garante o crescimento da indústria do setor a médio e longo prazo. As plantas industriais em operação cresceram de 131 em 2025 para 148 em 2026, aumentando em quase 8 milhões de toneladas/ano a capacidade de processamento e envolvendo quase R$ 8 bilhões de investimentos.
A região centro oeste lidera a expansão da capacidade industrial da soja e Mato Grosso tem a liderança nacional, respondendo por 22% de todo o processamento industrial de óleo e farelo de soja. Mato Grosso também é líder nacional na industrialização de etanol de milho.
Nos últimos anos o segmento da agroindústria é o que mais cresce em Mato Grosso, impulsionado justamente pelo expressivo aumento da indústria da soja (farelo e óleo) e do etanol de milho, que por sua vez, são puxados pelo aumento constante da demanda doméstica e internacional. Do total da soja produzida em Mato Grosso, 30% são industrializados e viram farelo ou óleo. A maior parte do farelo é exportado e o óleo é totalmente consumido no próprio estado e no Brasil sob a forma de biodiesel.
As cadeias produtivas da soja e do milho são as mais longas da agropecuária, envolvendo aproximadamente 35 atividades econômicas desde o plantio até o consumo final, fato que garante boa geração de empregos, renda e aquece a atividade econômica dos municípios e do estado.
A expansão da industrialização da produção agropecuária é o caminho natural para a modernização da matriz econômica do estado, pois produz impacto econômico e social ao gerar mais valor aos produtos, emprega capital humano mais qualificado, paga melhores remunerações e exige melhorias na infraestrutura econômica e social.
Esse ciclo virtuoso ajuda Mato Grosso a dar o salto qualitativo em seu status de “economia em desenvolvimento” para a de “economia desenvolvida”, dando mais sustentabilidade ao progresso econômico e reduzindo as desigualdades sociais e regionais.
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