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Overlanders

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Foto: Arquivo pessoal

“Conta-se que no século passado, um turista americano foi à cidade do Cairo, no Egito, com o objetivo de visitar um famoso sábio.

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O turista ficou surpreso ao ver que o sábio morava num quartinho muito simples e cheio de livros. As únicas peças de mobília eram uma cama, uma mesa e um banco.

Onde estão seus móveis? – perguntou o turista. E o sábio, bem depressa, perguntou também: E onde estão os seus…? Os meus?! – surpreendeu-se o turista – mas eu estou aqui só de passagem! Eu também… – concluiu o sábio.

“A vida na Terra é somente uma passagem… No entanto, alguns vivem como se fossem ficar aqui eternamente, e esquecem de ser feliz.”

A história/estória acima é por demais conhecida, acredito que você caro leitor, querida leitora já tinha ouvido ou lido.

O que leva uma pessoa deixar todo conforto: casa ampla, quarto arejado, cama confortável, lençóis e fronhas cheirosas, banheiro limpo, enfim, todo o conforto que o dinheiro, amealhado ao longa da vida pode comprar, e sair pelo mundo, de forma aventureira, frugal, em um carro, pequeno, perto da enorme casa, que ele não pode carregar nas costas.

Porque um casal não tão jovem se aventura pelos rincões de um Brasil, às vezes, nem tão seguro?

Na semana passada recebi em minha querida do Ilha do Amor, um casal, que no outono da idade, resolveu trocar o conforto de sua ampla, bela e confortável casa, em Gramado, RS, e cair literalmente nas estradas do Brasil, do mundo, da vida.

Provaram que não tem idade para se viver um sonho, não há tempo para ser feliz.

Conhecia Luciana pelas redes sociais, já que temos algo em comum, temos paixão por viagens, somos andarilhos, somos giramundo. Ela faz parte de um grupo de WhatsApp, criado pela carioca de Niterói, Daniela, que não conheço pessoalmente, mas graças às maravilhas da tecnologia nos tornamos amigos, e continuamente compartilhamos informações.

Luciana, entrou em contato comigo, já a caminho de São Luís, dizendo que no início da tarde de quarta-feira, 13/10, estaria no Centro histórico, em um bar, ponto turístico. Com alguns compromissos em andamento naquele dia, organizei a agenda, adiei alguns, desmarquei outros e fui vê-la. Sabia que ela viajava acompanhada, mas não conhecia seu companheiro de vida e estrada. Conforme o combinado, fui ao encontro dos dois, cheguei primeiro, e fiquei a esperá-los.

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Aprendi com o tempo, que só atraímos o que gostamos, e eu, em especial, tenho o privilégio e a bênção de só atrair gente boa, do bem, com boa energia. Papai do Céu não deixa que o ruim ou mal se aproxime de mim. Para quem não nasceu com nenhum talento, como eu, pelo menos meu anjo da guarda é fera. Graças ao meu maravilhoso anjo da guarda tenho colecionado pessoas especiais pela terra, por onde ando.

Com as apresentações de praxe, conversa rolando, os mais diferentes assuntos, conheço Luciana e Alexandre, enamorados um do outro e da vida, que aprenderam a difícil arte do bem viver. Com pouco tempo, estava diante de duas pessoas especiais, e como dizem meus filhos, “diferenciadas”.

A tarde findava, dando lugar à noite. Eles não tinham hotel reservado, e com um telefonema, consegui um quarto de hotel, onde pernoitariam na única noite que permaneceram em nossa ilha.

Conduzi-os até o hotel, para em seguida nos encontramos para jantar. Fomos à um restaurante típico, em torno de uma mesa: boa comida, boas bebidas, e ótimas conversas, fiquei sabendo do mágico mundo do casal.

Médica nefrologista, com o dever cumprido com a profissão de Hipócrates, filha criada, casamentos desfeitos, amor renovado, foi em Alexandre, empresário, com filhos encaminhados, casamento vencido, que Luciana encontrou tudo que precisava para se tornarem overlanders, cair na estada e conquistarem  o mundo.

A bordo da SW4 adesivada como “Expedição Graxaim Carçado, Soltos pelas Américas”, o casal ganhou o mundo.

Quantas pessoas que conhecemos em nosso entorno, que adiam indefinidamente as oportunidades de serem felizes, ou de fazerem o que gostam. Diferentes são os motivos que levam as pessoas a não realizarem seus sonhos.

Na mesa do restaurante, ouvindo o casal falar de seu estilo de vida, escolhas, tomadas de decisão, a opção de viverem minimalisticamente, era como o sábio do início desse relato.

Por mais que você tenha, não consegue sair pelo mundo com as coisas nas costas. A camionete SW4 usada, toda adaptada, como uma pequena casa, é tudo que Alexandre & Luciana precisam para usufruir do mundo. Aprenderam o real sentido da palavra “essencial”. E, isso está na essência deles.

A camionete é sua casa, o mundo seu quintal, as estrelas seu telhado. Pra que mais do quê isso? Para que acumular tantas coisas, se ao partir, não se leva nada?

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Quando aqui chegamos nada trouxemos, partiremos sem nada levar, e grande parte das pessoas não aprendem isso, que de tão simples se torna tão complexo.

A outrora dra. Luciana, com seus títulos, seus tailleur, suas sandálias e bolsas, tudo que a mulherada ama, deu lugar à uma mulher leve, sem amarras de indumentárias, regras, normas, coisas tão afeitas à uma sociedade consumista, feia, triste e doente, acumulativa e perdulária. Como só se atrai o que gostamos, foi no companheiro Alexandre, homem culto, amante das boas coisas da vida, cuja trilha sonora poderia ser composta por David Guimour, Roger Waters, Sid Barrett, Richard Whiters, ingleses, semi-deuses, que tiraram os melhores acordes, em uma banda chamada Pink Floyd. Para eu que cresci ouvindo a legendária banda inglesa, a conversa se tornou mais apetitosa. Dessas coisas escritas nas estrelas, o Pink Floyd, sem saber, juntou almas, criou vidas novas, moveu novos sonhos, alargou horizontes. A arte do bem viver é tão somente isso; a simplicidade é o mais elevado degrau da sofisticação, e nisso o casal é mestre, e está a ensinar por onde passa.

Vida longa, queridos Luciana & Alexandre, vocês são cavaleiros do bem, overlanders de uma nova era, aprenderam a arte do bem viver, e o principal, aprenderam o significado do “estamos aqui só de passagem”, como ensinou o sábio egípcio.

Luciana & Alexandre, assim como vocês, sou atemporal, e nossa matéria prima são os sonhos. Que nunca percamos a magia de sonhar, e com a criança que habita em nós, posamos continuar com fome e sede de novidades, de conhecer novos lugares, novas pessoas. Graças à isso que foi possível nos encontrarmos.

Luciana nunca deixe de ser destemida, Papai do Céu proteje, e o mundo conspira a favor dos que se atrevem. Alexandre, você é o Porto Seguro que esse vulcão precisava como bússola. Fantástico vê a união, parceria, e cumplicidade de vocês.

Somente almas que se completam para fazer o quê vocês estão fazendo.

Que nunca nos falte boas e abençoadas viagens e maravilhosas histórias para contar. Foi uma honra e um privilégio desfrutar da companhia de vocês, ouvir suas histórias, aqui em minha Ilha do Amor, e, que possamos nos reencontrar por esse mundão de meu Deus.

* Luiz Thadeu Nunes e Silva é Engenheiro Agrônomo, Palestrante e viajante: o sul-americano mais viajado do mundo com mobilidade reduzida, visitou 143 países em todos os continentes. 

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Da agonia à extinção

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Foto: Arquivo pessoal

Escrevi tempos atrás, um artigo intitulado “Agonia de uma ave”, no qual demonstrava toda minha preocupação com relação ao sumiço de um dos mais belos exemplares da nossa fauna. Comentando com amigos, concordaram comigo, mas acharam uma certa dose de pessimismo na minha preocupação. Como, ponderei eu, se há cerca de alguns poucos anos atrás já via essa real possibilidade de sua extinção e hoje parece não haver mais dúvida, afirmei.

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Como é expert em ornitologia, começa meu amigo dando uma verdadeira aula sobre os hábitos e as belezas da mesma. Pensei estar frente a um charlatão, mas, logo vi que se tratava de um conhecedor profundo dos hábitos do tucano.

Este estudioso, para minha tristeza infinita, confirma estar essa bela e formosa ave vivendo seus últimos dias de calvário. Lamentável! Muito lamentável!

Continua em sua explicação dizendo se tratar de ave canibal. De sua prole, ou da prole de outros semelhantes, poucos sobrevivem. Aqueles que demonstram aptidões físicas e principalmente tendência à liderança, são imediatamente enviados aos campos de extermínio. Falava meu orientador e passava na minha mente aquela fila interminável de judeus a caminho da câmara de gás.

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Contava-me também, que na sua fazenda, uma dessas aves, de alta plumagem, um verdadeiro líder, pois onde fosse era seguido pelo bando todo, após receber ajuda e mais ajuda dos seus semelhantes, e, sem que ninguém esperasse ou admitisse, coloca em situação difícil esse seu colega que enormes favores lhe fizera. Colocou-o simplesmente para tomar conta de uma colmeia.

Ao fazendeiro meu amigo, pouca esperança existia de vê-lo sair com vida de tamanha atrocidade.

À medida que narrava esses fatos, segundo ele, absolutamente verídicos, fui compreendendo porque dia a dia se deparar com um exemplar, se torna cada vez mais difícil. Os poucos que aparecem estão mal cuidados, necessitando de atenção médica urgente.

Não há como entender o perfil dessas complicadas aves sem que se tenha absoluto domínio do seu modo de viver.

Certo é que em pouquíssimo tempo, ficaremos nós e nossos filhos, impedidos de conviver com elas, pois sem nenhuma dúvida atravessam turbulências decisivas na luta pela sobrevivência. Se você nunca teve a oportunidade de fotografar ou ser fotografado ao lado de uma, aproveite seus derradeiros dias. No zoológico da Universidade, restam algumas, que ainda estão em bom estado de conservação. Seus tratadores, com carinho e muita atenção, tentam modificar seu modo de vida, mostrando-lhes a importância do companheirismo, da solidariedade, só assim garantindo a perpetuação da espécie.

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Acredito ser esta uma das ultimas oportunidades de ter, na sala da sua casa uma bela foto desse exemplar. Depois não diga que não lhe avisei!

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