ARTIGO
Diagnóstico rápido de leucemia precisa ser prioridade no SUS
OPINIÃO
No Fevereiro Laranja, mês dedicado à conscientização sobre a leucemia, o Brasil precisa encarar um problema que custa vidas: o atraso no diagnóstico. É inaceitável que um paciente do SUS aguarde mais de 10 dias pelo resultado de uma biópsia de medula óssea diante da suspeita de leucemia. Muitos pacientes com leucemia chegam ao tratamento especializado tarde demais. Esse atraso, recorrente no sistema público de saúde, transforma um câncer tratável em uma corrida contra o tempo perdida antes mesmo de começar.
A leucemia é um câncer que começa na medula óssea, responsável pela produção das células do sangue. Alterações nas células-tronco hematopoéticas fazem com que leucócitos anormais se multipliquem de forma descontrolada, comprometendo a produção de glóbulos vermelhos, plaquetas e células de defesa funcionais. O organismo entra em um colapso silencioso, muitas vezes sem sinais claros no início.
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registrou cerca de 11 mil novos casos de leucemia por ano, considerando o triênio 2023–2025, com discreta predominância entre os homens. Crianças, adultos jovens e idosos podem ser afetados, dependendo do tipo da doença. Apesar desses números expressivos, a leucemia ainda é frequentemente diagnosticada de forma tardia, especialmente no SUS.
O maior desafio está no fato de que os sintomas iniciais da leucemia são comuns e inespecíficos. Febre persistente, cansaço intenso, palidez, dores no corpo, manchas arroxeadas na pele, sangramentos espontâneos, infecções recorrentes e queda de plaquetas são manifestações que fazem parte da rotina das unidades básicas de saúde. Em um país como o Brasil, onde surtos de dengue são frequentes, essa semelhança clínica se torna ainda mais perigosa.
Dengue hemorrágica e leucemia podem ter sinais semelhantes, por exemplo, como febre, plaquetopenia e sangramentos. A diferença é que a dengue, em geral, apresenta evolução autolimitada. A leucemia não. Quando os sintomas persistem, se agravam ou não respondem como esperado, o sinal de alerta já deveria estar aceso. O problema é que, muitas vezes, isso não acontece a tempo. Do ponto de vista da saúde pública, o SUS ocupa posição central nesse cenário. A grande maioria dos pacientes com leucemia no Brasil depende exclusivamente do sistema público para diagnóstico e tratamento. O SUS dispõe de ferramentas fundamentais, como o hemograma, um exame simples, de baixo custo e amplamente disponível. Ainda assim, sua importância estratégica no rastreamento do câncer hematológico nem sempre é devidamente valorizada.
Há diariamente casos em que alterações persistentes no hemograma foram subestimadas por semanas ou meses. Anemia progressiva, plaquetopenia contínua, leucócitos muito elevados ou muito baixos e presença de células imaturas no sangue periférico não podem ser automaticamente atribuídos a viroses ou condições benignas sem investigação adequada. Quando esses sinais são ignorados, o diagnóstico chega tarde. A confirmação da leucemia exige exames mais complexos, como análise da medula óssea, imunofenotipagem por citometria de fluxo, estudos citogenéticos e testes moleculares. Esses exames estão disponíveis no SUS, mas o tempo entre a suspeita clínica e o acesso a essa investigação especializada ainda representa um gargalo em muitas regiões do país. Na leucemia, esse intervalo pode ser decisivo para a sobrevida.
As leucemias agudas, em especial, evoluem rapidamente e exigem início imediato do tratamento. O atraso diagnóstico pode resultar em infecções graves, sangramentos extensos e rápida deterioração clínica. Já as leucemias crônicas, muitas vezes silenciosas, poderiam ser identificadas precocemente em exames de rotina, evitando complicações futuras. Isso reforça a importância do acompanhamento médico regular, mesmo em pacientes assintomáticos.
É preciso dizer com clareza: não existe prevenção absoluta da leucemia. No entanto, existe algo plenamente possível e urgente — a prevenção do diagnóstico tardio. Isso passa por capacitação contínua dos profissionais da atenção básica, protocolos bem definidos, repetição de exames quando o quadro não evolui como esperado e encaminhamento rápido para investigação especializada.
O Fevereiro Laranja também deve reforçar a importância da doação de medula óssea como política pública permanente. Para muitos pacientes atendidos pelo SUS, o transplante representa a única chance de cura. Ampliar os registros de doadores é uma responsabilidade coletiva que precisa ser constantemente estimulada.
Diagnosticar é um ato que vai além da técnica. Diagnosticar é assumir responsabilidade sobre o tempo do paciente. Na leucemia, cada atraso cobra um preço alto. O SUS tem estrutura, profissionais qualificados e potencial para mudar essa realidade, mas isso exige prioridade, investimento e, sobretudo, atenção aos sinais que o corpo apresenta. Ignorar esses sinais custa vidas. Reconhecê-los a tempo é uma obrigação da saúde pública.
OPINIÃO
Mato Grosso e o acordo Mercosul-União Europeia
assaram-se 26 anos desde o início das negociações até a assinatura do acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul. Um acordo desta natureza significa a redução gradual de tributos de importação para o comércio entre as empresas produtoras situadas nessas regiões. O acordo abre grande janela de oportunidade para o Brasil, condicionada à modernização econômica, melhoria do ambiente de negócios e atendimento às exigências institucionais, sanitárias e ambientais.
Para muitos especialistas em comércio exterior este acordo parecia algo impossível. Basta lembrar que a formação do bloco europeu se deu após a Segunda Guerra Mundial num contexto de autoproteção. Entre os aspectos fundamentais na criação do Tratado de Roma, passo inicial da construção da U.E. estava a “segurança alimentar” e a “preferência comunitária”. Um sistema de proteção aos produtores agrícolas europeus que os blindava da importação de bens mais baratos livres de impostos. Um acordo como o atual era como um “sonho impossível” para o estado de Mato Grosso que tinha apenas os Países Baixos (Holanda) como seu principal destino das exportações de soja e de milho.
Na virada do século a União Europeia, não via o acordo com a mesma importância. O Mercosul era um potencial produtor de alimentos (ameaça), mas um mercado consumidor de pequeno porte de produtos europeus, com o Brasil tendo uma economia fechada, burocrática e altamente tributada.
Neste contexto mundial, surge o crescente comércio com a China que se torna o principal comprador das commodities brasileiras e, em especial, mato-grossenses. O forte ritmo de crescimento da economia chinesa necessitava de todo e qualquer alimento para abastecer seu gigantesco mercado consumidor. Ao mesmo tempo os recursos obtidos com a exportação de commodities faz crescer o mercado consumidor local, tornando o Mercosul um mercado mais importante e atrativo.
O Acordo beneficiará de forma assimétrica os diversos setores produtivos e as regiões do Brasil. Estudo de pesquisadores do IBRE/FGV avalia que a região Centro Oeste e os setores agropecuário, mineral e de celulose serão beneficiados de forma mais rápida. A despeito de ter sua pauta centrada em produtos primários de origem agropecuária e florestal, a região já conta com especializações produtivas, portfólio de produtos semiprocessados, celulose, boa base agroindustrial e inserção no mercado internacional.
Outro levantamento efetuado pela LCA Consultoria Econômica indica que mais de 76% dos produtos exportados para a União Europeia terão tarifa zero imediata, sendo mais de 50% de origem agropecuária e mineral, fato que beneficia a região Centro Oeste e, particularmente, a economia de Mato Grosso.
Fazendo uma retrospectiva no tempo, chegamos a 2026, com a constatação que o estado de Mato Grosso desenvolveu boa expertise em produzir de maneira competitiva, transformando-se em uma plataforma agroexportadora, apesar das barreiras tributárias internacionais e acumulou conhecimento e recursos, se tornando um parceiro comercial interessante. A União Europeia é um importante mercado comprador, apesar das restrições. Também é um importante fornecedor de tecnologias que podem apoiar o desenvolvimento do estado. Para a União Europeia, proteger excessivamente seus produtores agrícolas pode significar condenar-se ao atraso e custos de produção altos.
“O acordo em si não garante de forma automática ganhos econômicos sustentáveis”
Vivaldo Lopes
Por outro lado, o acordo contempla exigências não tarifárias nas áreas sanitárias, ambientais, defesa do clima e direitos humanos que podem exigir adaptações e melhoria da comunicação dos produtores agropecuários de Mato Grosso.
O acordo ainda leva algum tempo para entregar plenamente os benefícios planejados. Mas o atual estágio de desenvolvimento do Brasil deve colocar o país em boas condições para tirar maior proveito da excelente conquista comercial e diplomática. Para o Brasil, o acordo assume especial relevância, pela ampliação da inserção no mercado europeu, por ser a economia de maior peso do bloco e ter o maior mercado consumidor, com 215 milhões de consumidores. O país deve ampliar seu poder de atração de investimentos estrangeiros diretos e de estratégias de integração produtiva por parte de empresas europeias.
O acordo vai além da simples redução tarifária, devendo influenciar decisões de alocação de investimentos, reorganização de cadeias produtivas de valor e definir estratégias empresariais voltadas ao mercado doméstico brasileiro e regional.
O acordo consolida aquilo que se chama de “ganha-ganha”, beneficia a todos os lados. No entanto, as próximas etapas exigem muitas ações, decisões e regulamentações para reduzir as assimetrias entre as economias europeias e as dos países que compõem o Mercosul em questões institucionais, ambientais e produtividade.
O acordo em si não garante de forma automática ganhos econômicos sustentáveis. Para se beneficiar do potencial do acordo, o Brasil precisará modernizar suas bases produtivas, aumentar a produtividade, reduzir o chamado “custo Brasil” e construir boa arquitetura macroeconômica que garanta estabilidade e previsibilidade ao ambiente de negócios.
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