CUIABÁ

OPINIÃO

Economista analisa situação da BR-163: “é preciso punir quem contribui para estes desastres”

“As mortes precisam ser definitivamente contabilizadas e debitadas na conta daqueles que são os seus verdadeiros responsáveis”

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Foto: Reprodução

O acidente entre um ônibus e uma carreta na BR-163, ocorrido na terça-feira (17.05), deixou um sentimento de tristeza e indignação no povo mato-grossense. A morte de oito pessoas foi noticiada pela imprensa nacional, e causou comoção. Autoridades se posicionaram e falaram, mais uma vez, sobre as condições de tráfego na rodovia, onde corriqueiramente ocorrem acidentes que já ceifaram centenas de vidas.

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Tomado pelo mesmo sentimento de tristeza e indignação que tomou o povo mato-grossense, Eduardo Lima Porto, um dos principais pensadores da atualidade, escreveu um artigo no qual disseca os problemas que levam uma rodovia a ser tão mortal, e que o MT Notícias publica.

Leia o artigo na íntegra

Tomado pelo mesmo sentimento de tristeza sobre o acidente trágico ocorrido entre Sorriso e Sinop, peço permissão para agregar algumas considerações ao excelente artigo do Sr. Fernando Cadore (Presidente da APROSOJA/MT). O Mato Grosso é um Estado de fortes contrastes e contradições. De um lado, temos o Agro como o motor de propulsão do desenvolvimento e, de outro, a mais rotunda expressão da mediocridade e do banditismo em ação (e também omissão) representados pela classe política.

As mortes estúpidas ocorridas nesta semana, que somam-se a tantas outras dos últimos anos, precisam ser definitivamente contabilizadas e debitadas na conta daqueles que são os seus verdadeiros responsáveis. Me refiro a classe política majoritária deste Estado, assim como de uma casta de funcionários públicos inertes que se encontram encastelados no Mundo de Alice. De certa forma, esta responsabilidade também é nossa, pois a classe produtora do Estado tem sido leniente há anos e, porque não dizer, bovinamente tolerante com sujeitos da pior qualidade que ficaram milionários da noite para o dia, de forma escandalosamente explícita, que de tão escancarada são objeto de debate em mesas de boteco.

O setor agropecuário trata deste estado de coisas com uma gentileza para com os políticos que é inaceitável, como se esta representação política suja que aí está pudesse nos ser útil. Esta condescendência cobra um preço cada vez mais caro e está sendo paga não só com impostos, mas com muitas mortes. Não tapemos o Sol com a Peneira. Esta responsabilidade intrínseca também é nossa e mesmo tendo chegado por estas bandas há relativamente pouco tempo, igualmente me incluo no rol que corresponde a quem tem responsabilidade por suas ações e omissões.

Vim para o Mato Grosso por uma escolha deliberada e não por necessidade. Não pretendo sair daqui e me farei responsável pelas peleias que me correspondem, inclusive pela coleção de inimigos que certamente acumularei. Aliás, colecionar inimigos de peso, principalmente quando se tratam de políticos corruptos, empresas desonestas e sujeitos que cometem atrocidades, precisa ser motivo de orgulho para qualquer homem decente. Homens que não possuem inimigos no Brasil de hoje, definitivamente, não são homens de verdade.

Eduardo Lima Porto

Desde 2019 quando mudei para o MT percorri as estradas do Estado de carro muitas vezes, possivelmente fiz durante esse período mais de 300.000km. Em 2017, conheci a Diretoria da Rota do Oeste em Cuiabá por ocasião de um trabalho que me foi encomendado, o qual envolvia, entre outras coisas, a retomada do projeto da Ferrogrão que naquela altura estava totalmente adormecido.

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Uma das piores experiências que tive foi ter de escutar calado, o que definitivamente não faz parte da minha natureza, as justificativas indefensáveis da Concessionária para não terem cumprido com os compromissos assumidos no contrato. Lembro da conversa fiada do engenheiro responsável pelo avanço da obra quando perguntei sobre a perspectiva do cronograma para uma duplicação a partir do Posto Gil no sentido Nova Mutum O sujeito teve um chilique destemperado, respondendo a minha pergunta com outra pergunta debochada.

Perguntou se eu pensava que eles eram “chineses”? Recentemente participei de uma apresentação do Senador Wellington Fagundes (PL/MT) e da Deputada Janaina Riva em Sinop, na qual reclamaram com veemência e pediram o apoio para uma reivindicação que consistia na liberação dos recursos financeiros da Rota do Oeste bloqueados pela Justiça. Argumentaram que os referidos recursos estavam destinados a manutenção das estradas, a cobertura de despesas operacionais e investimentos.

Na sequencia, a nobre Deputada afirmou que os diretores da Concessionária e os seus acionistas, mesmo com o bloqueio judicial, teriam conseguido, supostamente, aumentar os próprios salários e ainda distribuído dividendos aos acionistas. Ora, que bloqueio é este que impede o pagamento de despesas operacionais e que ao mesmo tempo permite o aumento de salários e a distribuição de dividendos? Algo digno do Governo Dilma Roussef que consagrou a contabilidade criativa e a ressignificação de conceitos universais. Fazia muito tempo que não ouvia tanta besteira, o que poderia ter sido até muito engraçado, não fosse um assunto da maior gravidade.

Quantas vezes o legislativo estadual aumentou os seus próprios salários e extrapolou o orçamento em gastos inúteis de toda a ordem, mesmo em períodos de crise? Me parece que a Deputada projetou os desmandos da sua Assembleia Legislativa sobre a Rota do Oeste, que, diga-se de passagem, igualmente não merece qualquer defesa. Tratou-se, ao meu ver, de uma tentativa grotesca de desviar a atenção sobre as causas e sobre os verdadeiros causadores do problema, enfocando de forma inconsequente, nas consequências.

Quantos milhões de reais foram distribuídos para os políticos do MT por meio desta concessão infame ou através de emendas para que fizessem operações cosméticas de “tapa buraco” nos municípios? São inaceitáveis as justificativas acerca do tempo necessário para a substituição da Rota do Oeste. Há que se banir a Rota do Oeste do território mato-grossense e de forma exemplarmente energética. Se há algum encontro de contas a ser feito, que seja feito nos tribunais e que leve o tempo que for, contanto que se estabeleça de imediato o processo de duplicação da BR-163.

O trato displicente que está sendo dado para o assunto não passa de ardil por parte de quem se esconde atrás de um questionável rito processual e burocrático, para não destapar a foça fétida na qual estão metidos muitos políticos influentes do Estado. Desculpas dessa ordem não tem o menor cabimento e ainda revelam um elevado grau de irresponsabilidade, de incompetência e uma total ausência de sentido ético de urgência. É de uma clareza solar que os responsáveis por este estado de coisas não estão interessados em resolver a questão, muito menos de perseguirem os verdadeiros culpados por um desvio bilionário de recursos que já causou a morte de milhares de pessoas.

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Os mesmos participantes do esquema original e alguns de seus sucessores estão incumbidos de solucionar o problema que causaram. Só quem acredita na Cuca e no Saci Pererê, poderá achar que haverá uma solução minimamente satisfatória partindo de quem enriqueceu grotescamente com a manutenção das coisas do jeito que estão. Sou um entusiasta técnico da Ferrogrão. Meu entusiasmo não está calcado no interesse pecuniário ou pelo fato de fazer parte do Agro.

Um dos benefícios diretos da ferrovia é, sem dúvida, a redução das mortes nas estradas. Não quero fazer um aproveitamento oportunista da tragédia ocorrida esta semana para levantar a bandeira da ferrovia, muito pelo contrário. Considero que a duplicação da BR-163 deve ser a prioridade absoluta em termos de investimento no MT e já falo disso há bastante tempo. Qualquer outra questão deve ser posta em segundo plano, enquanto este problema não for definitivamente resolvido.

Concordo com o engenheiro da Concessionária em um aspecto. A solução efetiva para o problema pode ser a chamada de empresas chinesas ou de qualquer outro País onde haja uma sólida cultura de trabalho e de respeito aos cronogramas de entrega. Assim como, considero uma alternativa muito viável o envolvimento do Exército Brasileiro na execução da obra. A qualidade das construções executadas pelo Exército são credenciais incontestáveis. Não seria devaneio estabelecer um processo de transição que permitisse o término da obra e a sua posterior privatização.

A título ilustrativo, comentarei rapidamente a experiência que tive em Angola. Fui testemunha da transformação que as empreiteiras chinesas fizeram no País em menos de 3 anos, entregando milhares de quilômetros de estradas, uma ferrovia de 1.300km, represas e outras grandes obras. Por muitos anos a Odebrecht e suas suas congêneres brasileiras, bem como algumas das maiores empreiteiras portuguesas, dividiram a torta da reconstrução “pós-guerra” em Angola, baseando o modus operandi em licitações superfaturadas, obras inacabadas ou sequer iniciadas e muita distribuição de dinheiro a políticos, generais e funcionários públicos.

Ouvi de cidadãos angolanos comuns indicações do tipo: “pode ir por tal rota que ela está boa, foi construída pelos chineses” ou “não vá por tal caminho, a estrada foi feita por brasileiros e depois das chuvas já está cheia de buracos”. Estou sendo muito duro ou falando alguma inverdade sobre a qualidade das obras entregues por aqui? Claro está que os chineses também participam de esquemas, ainda mais em se tratando de um País como Angola que é endemicamente afetado pela corrupção.

Pelo menos, por aquelas bandas, algumas obras importantes foram finalizadas e vi a aprovação dos cidadãos que souberam diferenciar muito bem as porcarias que lhes foram entregues por nossas empreiteiras, das que foram executadas pelos chineses. Não podemos continuar complacentes com esta classe política e esperar que dela venham soluções para questões desta relevância. Há muito que os políticos do MT perderam totalmente a legitimidade e a vergonha na cara.

Precisamos tomar as rédeas deste assunto para finalizar a duplicação da BR-163, ao mesmo tempo em que é imperioso afastar e punir severamente a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, contribuíram e ainda contribuem para que a ocorrência de desastres na rodovia sejam uma infeliz realidade.

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Número de estupros de LGBTQIA+ cresceu 88% em 2021

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Os crimes de estupro contra a população LGBTQIA+ cresceram 88,4% entre os anos de 2020 e 2021, revelou hoje (28) o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, documento elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Em números absolutos, o registro dos estupros passou de 95 notificações em 2020 para 179 no ano passado. O número real de casos, no entanto, deve ser ainda maior porque foram computadas apenas as informações fornecidas pelas secretarias de Segurança Pública estaduais e pelas polícias.

O balanço, por exemplo, não computa dados de estados como São Paulo, Bahia, Maranhão, Minas Gerais e Rio de Janeiro, que não forneceram ou não dispõe de informações detalhadas sobre o tema. Além disso, há que se considerar também a subnotificação dos casos já que muitas pessoas não registram a violência das quais foram vítimas.

Na contramão dos dados nacionais que revelaram queda no número de mortes intencionais, os assassinatos de pessoas LGBTQIA+ registraram crescimento de 7,2% no ano passado. Em 2020, o balanço computou 167 homicídios dolosos [intencionais] contra essa população. Em 2021, foram computadas 179 mortes. O número deve ser ainda maior já que diversos estados deixaram de divulgar essas informações.

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Outro crime que também apresentou alta estatística foi a lesão corporal dolosa contra as pessoas LGBTQIA+, que passou de 1.271 notificações para 1.719, um crescimento de 35,2%.

Edição: Lílian Beraldo

Fonte: EBC Geral

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